Danilo

Mal resolvido sexualmente e na vida.

Já postei esse relato aqui, mas vou postar de novo porque acho que vale a pena ser lido, embora seja longo. Queria ter um feedback maior e que outras pessoas lessem. Vou continuar postando eventualmente. O site tá cheio de fakes, flood e spam que terminam atrapalhando e ofuscando os relatos verdadeiros e sérios. Embora o meu relato trate sobre sexualidade, não é putaria barata do tipo "enfiei o dedo no cu" ou "comi a minha irmã".

O que vou confessar agora são devaneios e pensamentos obscuros dos porões da minha mente sobre nuances da minha sexualidade e o impacto dela na minha vida. Pensamentos profundamente íntimos que provavelmente farão muitos me julgar como um sujeito pervertido, desajustado, perturbado ou louco, e talvez eu seja mesmo em algum grau, mas falar de sexualidade requer às vezes se afastar um pouco do âmbito da racionalidade. Tudo o que escrevi foi fruto de anos de autoanálise. Elaborei um longo relato que resume a minha situação e história, oferecendo um diagnóstico minucioso, fiel e sincero sobre mim. Talvez revelar esse conteúdo para um sexólogo seria mais adequado. Dissecar a mente e se desnudar completamente, nesse nível, requer coragem. Só mesmo o anonimato pra encorajar.

Então... Confesso que tenho pênis (grande, viril) e vagina como objetos de inveja e desejo, em graus diferentes. Desejo e me projeto em ambos os sexos, por ter a fantasia de ser plenamente, sob o ponto de vista sexual, homem ou mulher heterossexual. Isso porque sinto que não sou nenhum dos dois, tendo em vista a minha condição sexual. Me sinto uma espécie de híbrido, alguém incompleto e pela metade. Ao assistir pornô hetero desejo, invejo e me projeto nos dois sexos, em graus diferentes:
a) invejo igualmente os dois sexos;
b) desejo mais o sexo masculino e menos o sexo feminino.
É uma experiência e um olhar homoerótico/bissexual.
Sou frustrado com a combinação da minha orientação bissexual, predominantemente homo e eventualmente hetero [1], e o meu pênis [2] pequeno [3], órgão que julgo não ser adequado ou bom o suficiente para me relacionar satisfatoriamente, respectivamente, com os sexos masculino e feminino. Há portanto uma desarmonia, e não uma sintonia, entre corpo (pênis) e mente. O resultado é uma vida e experiência sexual insatisfatória, incompleta, fragmentada, difusa, e o senso de integridade sexual, masculinidade e autoestima abalados. A minha orientação não-heterossexual e o tamanho do meu pênis causam um duplo impacto no meu senso de masculinidade. Me sinto alienado da experiência sexual plena do coito genital quando consumo pornografia ou me relaciono com os dois sexos. Não me sinto, sexualmente, nem plenamente homem ou mulher heterossexual, em corpo e mente. Nunca serei nenhum dos dois.
Depois de algumas experiências recentes com o mesmo sexo, percebi que não me atraio romanticamente por homens, não me atraio particularmente pelo corpo masculino e não pratico sexo anal, como ativo ou passivo. Faço quase de tudo, menos penetração anal, que considero indigna, suja, desconfortável e dolorosa, uma agressão ao corpo que não proporciona prazer algum. Não considero o ânus órgão sexual. Devo admitir que a minha atração é direcionada particularmente ao pênis (grande, viril), associada a e potencializada pela fantasia de pertencer ao sexo oposto, por conta da penetração vaginal, ou reversamente, a fantasia de ter um pênis maior e ser hétero, plenamente homem. O pênis é o meu principal critério de escolha de parceiros do mesmo sexo, com quem então mantenho uma "amizade colorida": atualmente só tenho uma, há alguns anos, que foi compreensiva com as minhas particularidades e restrições. E com o meu corpo, porque o tamanho do pênis é crucial para a maior parte do universo gay. Praticamos sexo oral e gozamos com masturbação mútua.
Tive cinco experiências sexuais fracassadas com mulheres ao longo da vida, todas com garotas de programa. Duas na adolescência e três no início da vida adulta, embora já tenha me atraído por mulheres em outros momentos da vida, através principalmente de pornografia, mas também de outras formas. Com essas garotas a ereção era inexistente ou insuficiente para a penetração, não conseguia mantê-la e finalizar o ato. Cheguei a perder a ereção já dentro da vagina. Importante observar que, embora ainda insuficiente, a ereção foi melhor nas últimas experiências. Com mais maturidade o nervosismo era menor. Nunca tive experiência alguma com outras mulheres, nem mesmo um simples beijo. Por várias razões eu me esquivava o tempo todo. Em um determinado momento da pré-adolescência passei a achar que eu era o único BV, "boca virgem", - e fui até meados dos 20 anos, quando perdi com uma das garotas de programa - e achava que a minha inexperiência iria se traduzir em um fracasso que se espalharia para as outras pessoas. Daí o tempo foi passando e se tornou um ciclo vicioso: quanto mais velho, mais ansioso e mais difícil de resolver o problema. Tinha medo de me entregar à intimidade, perder o controle da situação, falhar. Desenvolvi uma grande ansiedade em torno disso, que marcou toda a minha minha juventude. Por vezes até me permitia me expor mais, ir a festas e eventos. Mas nada acontecia e eu voltava frustrado pra casa. Quando me dei conta já estava próximo dos 20 anos. Cheguei perto de ter algo físico com uma garota na adolescência, fruto de uma paixão juvenil. Lembro que uma noite, em minha casa, deitamos e dormimos em uma mesma cama de solteiro e o contato corporal me excitava, mas não fui além disso. Por timidez e covardia. Aliás, outras mulheres também já se encostaram em mim e me excitei, geralmente em ônibus. A escolha por garotas de programa se dava pelo cálculo de que se a minha inexperiência me rendesse um fracasso eu não correria o risco de ser exposto. Meu desejo pelo sexo oposto é secundário e inconstante, e a performance nunca foi garantida. Queria adquirir experiência com elas para depois reproduzir com outras mulheres.
Lembro que me "masturbava" desde muito cedo, me esfregando na cama, mas a minha primeira experiência sexual foi um abuso que sofri na infância por um adolescente. Foi prazeroso e eu reproduzi a experiência com amigos do prédio e um primo, ainda na infância. Eram "brincadeiras" e não ocorria penetração de fato. Um pouco mais velho lembro de ter reproduzido o abuso que sofri em duas crianças, a coisa mais abominável que já fiz. Lembro que acontecia também com colegas na escola o famoso troca-troca, que muitos meninos já vivenciaram nessa fase. Só fui ter novas experiências homossexuais muito tempo depois, já na vida adulta. Mas essas experiências da infância deixaram marcas permanentes.
Desde muito cedo sou frustrado com o tamanho do meu pênis, sempre me senti diminuído como homem por isso. Todos os pênis que eu já havia visto eram maiores que o meu. Uma das experiências que tive com garota de programa foi particularmente humilhante e traumática; ela agiu de modo a atingir em cheio esses meus dois traumas: a minha sexualidade e o tamanho do meu pênis. Os dois pesadelos de um homem. Fiquei transtornado e mandei ela ir embora na hora. Sinto que o tamanho do meu pênis teve papel decisivo na formação da minha sexualidade. A minha inveja e desejo por pênis viris sempre foram duas faces da mesma moeda. E um papel decisivo no meu fracasso com mulheres, as garotas de programa, por nunca me sentir viril o suficiente. Como já falei, o meu desejo pelo sexo oposto é secundário e inconstante, e a performance nunca foi garantida, então a insegurança e o nervosismo com o tamanho do pênis só pioravam a performance. Isso sem contar que o sexo com garotas de programa era uma situação artificial, não natural, o que por si só já não me deixava à vontade, como vou explicar melhor mais na frente.
Da pré-adolescência em diante descobri a masturbação e comecei a consumir diversas categorias de pornografia, inclusive eventualmente homo, que me excitava particularmente, mas considerava tabu. Na maior parte das vezes consumia pornografia heterossexual, embora com um olhar homoerótico e bissexual latente. A libido era alta, por conta dos hormônios, e quase tudo me estimulava. Não chegava a questionar a minha sexualidade. Obviamente estava ciente que o desejo pelo mesmo sexo estava presente em algum grau, mas não dava a isso muita importância. Até porque também tinha Playboys e me masturbava com solo feminino e lésbicas. Tratava como uma espécie de fetiche que eu administraria sem grandes dificuldades e conciliaria a uma vida sexual normal, hétero, jamais como algo que fosse definir a minha identidade e os rumos da minha vida. Não tive outras experiências sexuais nessa fase além dessas duas com garotas de programa, por volta dos 14 anos. Só mais tarde, depois de 2013, já na faculdade e aos 20 e poucos anos, depois das três últimas experiências fracassadas com garotas de programa, me permiti ter novas experiências com o mesmo sexo, depois de um longo e doloroso processo de autoconhecimento que culminou com a minha conclusão, inesperada e também dolorosa, de ser gay. Ou pelo menos de não ser hétero, como prefiro afirmar hoje, o que deixa margem a um grau de bissexualidade. Foi a primeira vez que beijei um homem. Foi uma reviravolta, e como se o mundo tivesse caído sobre a minha cabeça. Perdi o chão e tive que reconfigurar toda a minha maneira de interpretar a mim e a minha história. Jamais havia atribuído o meu insucesso com as mulheres à minha sexualidade. A reviravolta foi então atribuir o insucesso com o sexo oposto, além de todos os fatores que mencionei, no fundo também em grande parte ao pouco interesse por mulheres, e à atração pelo mesmo sexo. Nunca havia associado as duas ideias antes. Percebi então que essa seria uma realidade que teria um papel na minha vida maior do que eu esperava, queria e estava preparado. Estava na psicanálise e estagiando nessa época. Foi quando afundei ainda mais na depressão. Apesar de tudo, depois dessas experiências homo amadureci e defini melhor as minhas preferências e percebi que não me enquadro inteiramente na dinâmica e experiência homossexual tradicional. Por esse motivo me acomodei com a minha atual "amizade colorida", já há alguns anos, que foi compreensiva com esse fato. Por esse motivo também desenvolvi a fantasia de pertencer ao sexo oposto, por conta da penetração vaginal. Por um breve período cheguei a cogitar que fosse mesmo assexual. Na verdade o meu desejo homo se assemelha a um fetiche por pênis viris, embora reconheça que seja mais frequente e intenso que o desejo pelo sexo oposto. É, portanto, a minha preferência. Então a minha orientação sexual seria a seguinte:
1) Desejo primário: pênis viris, intenso, consistente e recorrente, mais visual e associado à fantasia de pertencer ao sexo oposto. Sinto desejo pelo sexo masculino mas não posso, por razões fisiológicas, ser plena e satisfatoriamente penetrado, como uma mulher seria. Por esse motivo invejo a experiência da mulher heterossexual.
2) Desejo secundário: sexo oposto, menos intenso, consistente e recorrente, associado ao toque corporal, prejudicado pela minha inexperiência e pelo tamanho do meu pênis, que afeta a minha autoimagem, autoestima e autoconfiança como homem. Sinto eventualmente desejo pelo sexo feminino, mas não me sinto, sexualmente, plenamente homem, por conta do tamanho do meu pênis e por dividir esse desejo com o desejo pelo sexo masculino. Por isso a performance com mulheres nunca foi garantida: é um desejo imprevisível, inconsistente, volátil, inconstante. Por esse motivo invejo a experiência do homem heterossexual, com um pênis viril.
Como falei, o que eu queria era vivenciar a plenitude da experiência sexual e do coito genital como um homem ou mulher heterossexual vivenciariam, algo que a minha condição sexual me impede de fazer. Essa seria a experiência plena dos dois desejos que me ocorrem.
Fazendo um paralelo com a alimentação, o sexo oposto para mim seria como "arroz, feijão, bife, ovo e salada: um prato feito" enquanto o mesmo sexo seria "fast-food". O primeiro não deixa de ser bom, especialmente se bem temperado, mas o último naturalmente desperta mais o apetite. Similarmente, o mesmo sexo me causa uma excitação mais intensa e consistente que o sexo oposto. A excitação pelo sexo oposto é menos intensa, consistente e, em situações reais, requer a conjugação de alguns fatores favoráveis para que ocorra e se mantenha.
Sendo sincero e entrando em detalhes, desde cedo acho que o apelo do pênis é ser "algo", que se projeta para fora do corpo e tem uma forma clara, além de propriedades: ereção, lubrificação, ejaculação. Um órgão propriamente dito, algo com substância. A vagina, principalmente vista pela frente, por vezes me parece um "não-algo/órgão", a falta de algo, um buraco ou fenda de aparência intricada, algo sem substância, especialmente quando sem pêlos, que é quando me parece que a mulher "não tem nada" entre as pernas, é um ser castrado. Sua única propriedade é a lubrificação.
Vista por trás, quando os lábios ficam mais evidentes, é um ângulo mais interessante. Geralmente é o que me excita.
O apelo da mulher está no conjunto do corpo e no toque corporal, não exclusivamente no órgão genital. Com homens penso o contrário, o apelo está no órgão genital.
Pelo menos até hoje, tendo também a achar mais gratificante a masturbação, onde posso controlar melhor o ritmo, à penetração vaginal, que também dispende mais energia. Talvez eu mude de ideia quando penetrar uma mulher sem preservativo, que é uma curiosidade que tenho e pretendo experimentar. Talvez a grossura do meu pênis também influa na experiência, causando um prazer menor pelo menor atrito com a vagina. Das experiências que tive até hoje, não lembro de ter sido muito estimulado pela penetração. Creio que até por isso cheguei a perder a ereção já dentro da vagina.
Hoje em dia continuo consumindo principalmente pornô hétero, seguido por solo masculino e por fim pornô homo, sem penetração. São raras as vezes que vejo solo feminino e praticamente nunca pornô lésbico.
O resultado é me sentir, simultaneamente:
1) frustrado sexualmente, pelos motivos já apontados, tendo em vista a relação entre a minha insatisfação com o meu corpo (pênis), e as minhas preferências e fantasias sexuais;
2) frustrado como homem, por não ter uma mulher ao lado e a expectativa de ter filhos;
3) consequentemente depressão e frustração como pessoa, na vida social, profissional etc., por uma combinação de depressão, falta de motivação e, confesso, mediocridade enquanto pessoa. Na verdade sinto também que não sei fazer nada na vida, não tenho nenhum talento especial. O que só torna tudo pior. Só me destaquei como estudante, há muito tempo atrás, antes da minha vida começar a sair do eixo. Desde então, a mediocridade predominou na minha vida, embora eu ainda tenha conseguido ser aprovado no segundo curso mais concorrido da universidade federal da minha cidade e também ser aprovado em primeiro lugar para uma vaga de estágio mais disputada que o próprio vestibular que fiz.
Ou seja, a minha frustração sexual se traduz em frustração como homem e consequentemente como pessoa, por uma combinação de fatores.
Vivo também uma desgastante tensão entre progressismo e conservadorismo na minha mente, difícil de conciliar. Não pertenço nem sou plenamente acolhido pelo universo lgbt nem por setores conservadores, sobretudo os de matriz religiosa. Minha identidade é disputada pelos dois grupos. Nenhum deles acolhe plenamente quem eu sou.
Isso teve repercussão na minha formação política. Depois de muito ponderar e buscar um equilíbrio me defino hoje como centro-direita: nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. À direita de um grupo, à esquerda de outro.
Fazer parte de uma minoria marginalizada e discriminada é difícil, ainda mais quando se trata de uma condição que não escolhi e que não ganho nada com isso. Pelo contrário, só tenho prejuízos.
Considero a minha realidade uma disfunção, desarranjo ou desordem da função sexual, que é em última instância direcionada para a reprodução. O prazer é consequência. Não colocaria, contudo, na categoria de imoralidade, como são as parafilias.
Pelo fato de sempre ter convivido entre os héteros, tive também a minha sociabilidade prejudicada por um conflito de identidade social, pelo desafio de me manter fiel a mim e minha história sem mentir ou atuar, fingindo ser quem não sou (hétero e com experiência com mulheres), mas sem também entregar quem realmente sou (homo/bi), para não comprometer os meus planos futuros de constituir uma família tradicional. Também nunca sei o que as pessoas a minha volta pensam sobre mim a esse respeito, então fico às cegas e sem uma referência, embora acredite que a maioria a essa altura, e talvez já há um bom tempo, desconfie da minha sexualidade, pelo fato de ter 26 anos, boa aparência e ninguém nunca ter me visto com uma mulher. A omissão, e não a ação, me denuncia. Então eu nunca sei bem como me posicionar, afirmar e atuar socialmente, que máscara devo usar, que papel devo desempenhar sem revelar o que não quero ou cair no ridículo. Sempre tentei me manter neutro, "assexual" por isso. Isso só vai acabar quando eu tiver uma mulher ao meu lado. Situações embaraçosas e constrangedoras tendem a acontecer, e já aconteceram, sobretudo quando entre homens héteros solteiros, o que era mais predominante na adolescência, fase repleta de festas e eventos dedicados a "pegação". Como já falei, até me permiti diversas vezes me expor mais e comparecer a festas e eventos, mas nada acontecia e eu voltava pra casa frustrado. Chegou um momento que eu não conseguia mais acompanhar os meus amigos e me tornei o pega/come-ninguém da turma. A autoestima e autoconfiança foram à lona. Foi quando comecei a me sentir deslocado, diferente, inferior, excluído, a frequentar terapeutas e consequentemente tomar antidepressivos. Meu desempenho escolar começou a desabar. Até então, desde a infância até meados da pré-adolescência, vivia feliz e de bem com a vida. Me sentia adaptado, integrado à vida e aos meus amigos. Meu desempenho escolar era muito bom. Nunca havia tido problemas, exceto quando frequentei brevemente uma terapeuta para lidar com a perda do meu pai, que foi uma iniciativa da minha mãe. Na época, na adolescência, estava sofrendo e muito confuso sobre quem eu era e o que estava acontecendo com a minha vida. Lutei por muito tempo para encontrar a minha identidade, a minha turma e o meu lugar na vida, enquanto via a vida dos outros, a juventude, acontecendo diante dos meus olhos. Por isso a tendência à reclusão, desde a adolescência. Não vivi a juventude por conta disso, passei boa parte dela no meu quarto. Até hoje não é muito diferente. Vivo e faço a maior parte dos meus programas sozinho: beber, comer, ir ao cinema, tomar um café. Até gosto e estou acostumado com a solidão em grande parte, mas o ser humano é um ser social e também sinto a necessidade de socializar eventualmente. Lembro que a certa altura bebia vodka antes de ir para o colégio, que estava se tornando uma experiência insuportável. Cogitei também mudar de cidade. Mais na frente, no ensino médio, mudei o grupo de amigos por conta disso, porque eles também não tinham muita desenvoltura com mulheres na época, então eu me camuflava entre eles, embora eu ainda não tivesse consciência plena de quem eu realmente era. Só frequentava ambientes que julgava seguros, e ainda hoje é assim, embora um pouco mais tranquilo pelo fato de a maioria dos meus amigos estarem namorando, e mais maduros. É um tipo de interação mais tranquila, neutra, menos intimidadora. Ainda assim, é comum eu passar meses sem ver os meus amigos, os encontrando apenas em ocasiões especiais.
Na faculdade também havia menos pressão nesse sentido, mas mesmo assim mantive a mesma estratégia da adolescência e só frequentei apenas dois eventos da turma em todos os cinco anos de curso.
Essa tensão quanto à minha identidade e forma de atuar socialmente foi bastante evidente durante a faculdade. Eu e alguns colegas fechamos um grupo de carona, e naturalmente convivemos muito tempo por conta disso, já que a faculdade era longe de onde morávamos. Durante o percurso diário conversámos sobre absolutamente tudo, e naturalmente eles comentavam as experiências sexuais e afetivas que tiveram na juventude. Nesses momentos eu ficava absolutamente tenso e calado. Com o tempo eles naturalmente perceberam o padrão. Foi quando um desses colegas um dia sugeriu que eu fosse gay, ainda que em tom mais ou menos de brincadeira.
Já ouvi pessoas sugerindo (um primo e esse colega da faculdade) ou me apontando como gay (minha irmã), o que na verdade me surpreendeu. Sempre achei que a minha reputação fosse mais a de um sujeito meio estranho, recluso, ascético, sem desenvoltura com mulheres, assexual até. Imaginava que a minha reputação fosse mesmo a de pega/come-ninguém, o que já atingia a minha autoestima, mas jamais gay. Acho que pensei isso por não ter trejeitos e sempre ter me socializado entre os héteros. Me dei conta então que a minha neutralidade, ou "assexualidade", na verdade estava sendo interpretada como homossexualidade. A minha fama foi de pega/come-ninguém para gay. Descobri que não há lugar seguro nessa omissão, não é uma estratégia que funciona. Se quero mudar essa percepção devo fazer algo. No caso, ter uma mulher ao meu lado.
Minha mãe sabe da minha condição, porque me perguntou. Minha madrinha, minha segunda mãe, também sabe. Não pretendia ter a iniciativa de contar para a minha mãe, mas tinha em mente que não iria mentir caso fosse perguntado. Ela me ama incondicionalmente e sabe do meu sofrimento.
Fiz a besteira de, num momento de confusão, revelar a um colega da faculdade que era bissexual. Obviamente pedi segredo, mas não sei até hoje se ele contou isso para outra pessoa.
Fora isso, só o meu terapeuta sabe.
A essa altura preciso de uma mulher ao meu lado para, dentre outras coisas, me afirmar socialmente como homem.
Sempre convivi entre os heteros, então naturalmente moldei a minha identidade, valores, planos e expectativas nesse modelo. É a vida que os meus amigos, primos e irmão vivem.
Só temos uma vida para viver. Uma chance para sermos felizes. Uns tem sorte, outros azar. Uns sofrem, outros são felizes. Acho injusto arcar com o prejuízo decorrente de uma condição que não escolhi, que me foi imposta. A vida é o bem mais raro e precioso que existe, um sopro entre duas eternidades. Devemos vivê-la da forma mais plena possível. A minha condição sexual me impede de viver uma vida plena.
Considero a felicidade como sinônimo principalmente de viver a plenitude de todas as formas de amor: eros, philia etc.; por esposa, filhos, família, amigos etc. e do sexo. Esse é o alicerce: ter relações de qualidade com as pessoas. Essa, pra mim, é a experiência mais importante e que atribui sentido à vida. O resto é consequência. Não quero muito dessa vida, sou uma pessoa que se realiza com as experiências mais simples e singelas da vida, que considero as mais valiosas. Tudo isso foi impactado direta ou indiretamente pela minha condição sexual.
Viver uma vida sem sentido é viver em sofrimento.
a) O sofrimento (minha vida atualmente);
b) o nada (morte natural);
c) ou o inferno (suicídio) são as minhas únicas possibilidades atualmente. Não tenho opções ou pra onde correr.
Não tenho certeza se alcançarei a felicidade nessa vida.
Não há nenhum consolo de ordem metafísica, ninguém a quem recorrer. A vida e o universo são um absurdo que não oferece consolo algum aos que sofrem. O sofrimento é real e, sob esse prisma, inevitável. A morte resolve todos os problemas.
Tive uma experiência religiosa no passado, que me rendeu alguns meses de fervor religioso e esperança, mas hoje, longe do calor dos acontecimentos, esse sentimento se dissipou. Hoje acredito apenas em um Criador, de forma abstrata e genérica.
Depois de anos de ateísmo e agnosticismo, percebi que essa não é e não pode ser uma questão científica, mas sim filosófica. Então embora não se possa demonstrar cientificamente, acredito, por diversas razões filosóficas, em um princípio inteligente, imaterial e puramente mental, que deu causa ao Universo material. Mas isso sob uma perspectiva deísta, ou seja, "o Deus dos filósofos", e não da religião. Um Deus, ou Criador como prefiro, distante, inacessível, incompreensível, que não oferece consolo aos que sofrem. Penso isso apesar da minha relação especial e ambígua com o cristianismo/catolicismo, por conta dos eventos que testemunhei.
No teísmo por sua vez, e especificamente no Cristianismo, temos um Deus pessoal, humanizado até, que não só criou mas atua na história humana, se revela de forma especial, através dos profetas e da encarnação em Jesus Cristo, ouve e responde orações, julga, castiga, premia, distribui bençãos, concede graças, se interessa e age na vida das pessoas. É um Deus vivo e atuante, traduzido no enredo cristão de criação, corrupção, redenção e julgamento da humanidade. Há, portanto, a expectativa do céu ou inferno.
Hoje não acredito nesse Deus.
Quanto a vida após a morte, tendo a acreditar que a morte seja o final absoluto porque ainda mantenho uma perspectiva materialista que não reconhece as categorias de espírito, alma etc. Entendo que o melhor conhecimento científico indica que a mente é um produto do cérebro, e portanto não pode subsistir sem ele. Pelo menos até que provem o contrário. Mas posso dizer que a minha experiência particularmente me deixou com medo do "maligno" e do inferno, apesar de tudo.
Sou um deísta com um pé no catolicismo, o que não é nada que ofereça muito consolo.
Não chego a ser niilista, me alinho mais ao existencialismo.
Enfrento depressão crônica, faço terapia e tomo antidepressivos desde a adolescência. Há um bom tempo vivo à beira do abismo e o meu desejo é o de não ter nascido, dormir e não acordar mais ou que a morte me faça um favor. Não cometo suicídio porque tenho medo da possibilidade do inferno, por conta dessa experiência religiosa que tive no passado, e também porque não destruiria a vida dos que amo e me amam, principalmente a minha mãe e uma sobrinha. Não fosse isso, daria um tiro na cabeça, um método rápido e eficaz. Vontade não falta. A ideação suicida existe desde a adolescência.
O saldo é que estou com 26 anos, solteiro, desempregado, sem carro, quase sem vida social, levei quase 10 anos pra me graduar, morando com e sendo sustentado pela mãe e com o dinheiro deixado pelo meu pai acabando. Um fracasso total, como homem e pessoa, em todas as áreas da vida. Preciso de motivação para seguir a vida de concurseiro, a minha única alternativa no momento, e que leva tempo pra dar resultado, pela alta competitividade. Preciso enxergar uma luz no fim do túnel. Não tenho nada construído ou conquistado. Está tudo por fazer, o futuro em aberto, incerto. Não sei o que esperar da próxima década e dos meus 30 anos. Até aqui, os 20 anos, desde a adolescência, tem sido um desastre. A minha vida ainda não engrenou.
O desafio agora é encontrar alguém especial, que me atraia e com quem eu me sinta confortável e seguro, do sexo oposto, para novas experiências sexuais e afetivas, tendo em vista que as experiências com garotas de programa não foram um bom parâmetro. Isso porque descobri mais recentemente que também tenho certa dificuldade de me excitar e gozar com o mesmo sexo, em situações reais. Cheguei a marcar encontros com alguns caras e nem excitado ficava, inclusive com um garoto de programa. É um padrão que ocorre com os dois sexos. Preciso estar ambientado e confortável. Não gosto de motel, preservativo, sexo com hora marcada e artificialidades. Até por esse motivo me acomodei com a minha atual "amizade colorida", com quem hoje me sinto confortável. Mas lembro que demorei um pouco para me soltar e gozar com ela pela primeira vez. Então o desafio agora é buscar alguém especial, do sexo oposto, que me atraia e com quem eu me sinta confortável e seguro, nas minhas atuais condições, fragilizado como homem, inexperiente no amor e com quase nada a oferecer a uma mulher além de um rosto bonito, e talvez um bom papo. Uma história de amor improvável? Missão impossível? Alguém que me salve? Sou um homem sem muito apelo para a maioria das mulheres. Se eu tivesse lidado com esse tema quando era mais jovem teria sido mais fácil. Aposto em um arranjo dentro da bissexualidade, nos moldes de experiências de homens que eu e meu terapeuta conhecemos concretamente, além de casos que abundam na internet.
A essa altura estaria satisfeito e encontraria o meu lugar na vida dentro da bissexualidade. Não pretendo investir na vida homo ou na castidade, uma vida estéril. Ser incapaz de manter uma relação com uma mulher e eventualmente ter filhos me perturba mais do que ter atração pelo mesmo sexo. É algo inaceitável para mim. Sendo sincero, a falta ou a baixa atração pelo sexo oposto me perturba mais que a atração pelo mesmo sexo em si, algo que atinge em cheio o meu senso de masculinidade, o meu papel de homem. Talvez se eu gostasse menos do mesmo sexo que do sexo oposto eu estaria mais satisfeito, ou seja, se eu fosse bissexual predominantemente hétero e eventualmente homo. Mas o que ocorre é o oposto, ou seja, bissexual predominantemente homo e eventualmente hétero. É claro que ser heterossexual seria preferível dentre todas as opções. Que eu não sou hétero eu já sei, o desafio agora é descobrir se o desejo que eventualmente já senti pelo sexo oposto ao longo da vida é suficiente para se traduzir em uma experiência concreta capaz de sustentar um relacionamento, dessa vez nas condições adequadas, e não mais com garotas de programa. É isso que desejo avidamente descobrir: se a minha vida ainda tem jeito, se vou ser capaz de vivenciar o amor plenamente. Do contrário me sentirei fracassado como homem e pessoa e viverei infeliz numa vida sem sentido. Minha única esperança é essa. Quero conhecer alguém com quem possa construir um futuro no médio e longo prazo e que me devolva a esperança de viver uma vida plena de sentido, que valha a pena viver. Sinto que não consigo mais caminhar sozinho nessa etapa, daqui em diante. Já caminho sozinho há muito tempo. Sinto agora a necessidade de uma pessoa ao meu lado, que me faça enxergar o brilho da vida novamente.
Já perdi algumas oportunidades na vida, mas recentemente perdi uma grande oportunidade de alguém especial, bonita por dentro e por fora, com quem tinha grande afinidade e que gostava de mim do jeito que eu sou, embora nunca tenha dado detalhes sobre a minha sexualidade. Nos conhecemos pela internet em meados de 2013/2014, através de um fórum sobre assexualidade, quando cogitei ser assexual, e desenvolvemos uma relação de amizade muito natural que mais tarde evoluiu para algo mais. Infelizmente moramos em cidades muito distantes uma da outra, e ela eventualmente conheceu outra pessoa, com quem está em um relacionamento sério agora. Ouvir dela que só posso tê-la como amiga foi muito doloroso depois de todos esses anos, da minha situação atual e das coisas que já falamos um pro outro. Tento agora encontrar alguém semelhante a ela. O que sei que será difícil.
A união entre o masculino e feminino que se complementam e gera a vida é algo sublime: duas pessoas que se tornam uma. Homem e mulher foram feitos um para o outro. Hoje em dia tenho inveja "branca" quando vejo casais bonitos, felizes, demonstrando carinho e amor.
Quero constituir a família tradicional que não tive. Meu pai faleceu cedo e cresci com a minha mãe e uma irmã problemática. Sempre tive inveja dos meus amigos que viviam em uma família tradicional, feliz. Pai, mãe e filhos unidos. A base de tudo. Claro que sei que toda família tem também os seus problemas. Não quero terminar sozinho na vida, depois de tudo o que (não) vivi. Perdi a juventude, não quero perder também a vida adulta. Seria muito injusto, uma derrota completa. Amigos e trabalho não compensam essa falta, até porque tenho uma vida social irrisória e não sinto que tenha algum talento especial. Quero seguir o curso natural da vida.
É de certa forma injusto constatar que isso não depende só da minha vontade, mas de fatores além do meu controle, que me foram impostos, no caso, a minha sexualidade. Como falei, acho injusto arcar com o prejuízo decorrente de uma condição que não escolhi.
Incerteza, ansiedade, pessimismo, e desespero predominam enquanto não alcanço o meu objetivo, ou sinto que estou no caminho, próximo de alcançar. Sinto que ainda estou longe de atingir o meu objetivo.
Terapia, antidepressivos, álcool e desabafo são paleativos. Falar sobre o problema não resolve o problema. Anseio por uma solução final, boa ou ruim (morte). Já sofro há um bom tempo. Tenho abusado do álcool recentemente.
Vejo o tempo e a vida passando, e as pessoas, sobretudo primos, amigos e colegas, a minha volta progredindo, fazendo pós-graduação, trabalhando, namorando, noivando, casando. E eu nessa situação, com 26 anos e o tempo trabalhando contra mim.
Minha tarefa no momento é me matricular em um cursinho presencial para me reinserir na vida e conhecer novas pessoas, já que há um vácuo social depois da faculdade, pra quem não trabalha. E aliar isso a outras estratégias de socialização, como frequentar um grupo de prática de idiomas na minha cidade, sair com primos etc. Tenho apostado também em aplicativos (Tinder e afins), mas até agora sem nenhum resultado.
Preciso no momento de uma boa dose de sorte. E muita esperança. Sem isso não tenho nada.
Tenho saudades do passado, onde era feliz, e não o perdedor que sou hoje. Da pessoa que eu era e pensava que seria.
A minha condição sexual me impede de viver uma vida plena.
Perdi a juventude, não quero perder também a vida adulta. O tempo e a vida estão passando depressa.

Depois de muito tempo relutando em revelar muitos dos detalhes que aqui descrevi, finalmente resolvi compartilhar esse relato com o meu terapeuta, de quem gosto muito. Não é fácil revelar os seus segredos, traumas, fragilidades, desejos e fantasias mais íntimos. Ele tem me ajudado bastante, e é agora a pessoa que mais me conhece, nos mínimos detalhes. Traz uma certa satisfação desabafar com outro ser humano, se deixar conhecer plenamente, embora não traga nenhum efeito prático para a resolução do problema.
Tenho também compartilhado esse relato anonimamente na internet, com o objetivo de conhecer pessoas com histórias semelhantes à minha. Essas pessoas existem, mas são um grupo silencioso, até mesmo porque precisam manter a discrição. É difícil encontrar um grupo de apoio. Até agora só encontrei uma pessoa que se identificou com o meu relato. Ele se identifica como bissexual e atualmente namora uma mulher. Temos nos comunicado desde então. O apoio mútuo e a troca de experiências é salutar e ajuda muito, além da terapia.

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Dio

[publicação removida pelo autor do post]

Danilo

Poxa, Dio. Sem querer apaguei a sua reposta. Poderia postar de novo, por favor?

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